RACHA

Um racha entre o mar e a lagoa

André Balocco, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Um racha do tamanho do canal do Jardim de Alah está movimentando os dois bairros mais charmosos do Rio. De um lado o presidente do Conselho Comunitário da Região 23, Augusto Boisson, e moradores do entorno do parque, temerosos de uma ocupação desordenada; do outro empresários e associações de moradores comerciais de Ipanema, cansados de verem a região abandonada e tomada por mendigos. No meio, um jardim construído em 1938 e que teve o nome inspirado no filme The Garden of Allah, com Marlene Dietrich e Charles Boyer, lançado dois anos antes. O objeto da discórdia: a implantação de quiosques para venda de flores, nos três módulos do parque, e a realização de espetáculos de teatro infantil.
– O município quer é arrecadar, entregar a administração pública à iniciativa privada. Quero saber quando a prefeitura vai adotar o Rio – ataca Boisson, sem temer a pecha de ranzinza, certo que está ao apontar o município como o único responsável pela manutenção do parque.
Boisson diz ter alternativa à tentadora proposta, apresentada em reunião na semana retrasada no próprio Jardim de Alah entre o criador do projeto Quadrilátero do Charme, Bruno Pereira, o subprefeito da Zona Sul, Bruno Ramos, e as presidentes das Associações de Moradores do Leblon, Evelyn Rosenzweig, e de Ipanema, Maria Amélia Loureiro. Segundo ele, basta que o município trabalhe constantemente para manter a praça limpa e segura – uma imagem bem distante da flagrada pela reportagem do JB na semana passada, em que a rotina de mendigos e garis da Comlurb dormindo nos bancos se misturava a grades quebradas e jardins mal cuidados.
– A minha preocupação é que deixem aquilo se deteriorar de propósito – explica Boisson, expondo as razões de sua negativa. – A tendência é, abrindo o comércio ali dentro, um adensamento de pessoas, o que vai trazer outras atividades paralelas, como churrasquinho e pagode, e a descaracterização da região. Aquilo é um jardim. Não pode ter atividade comercial. Daqui a pouco, vão estar vendendo calcinha e sutiã nos arredores.
Faz sentido. Pelo histórico de ausência do poder público, que atravessa as administrações de diferentes matizes ideológicas, Boisson consegue se justificar, assim como Gladys Vieira Nunes, moradora e presidente da comissão de amigos do Jardim de Alah:
– O loteamento deste local é um crime contra o patrimônio – critica Gladys. – Os três módulos que compõem o Jardim de Alah formam uma joia preciosa e de uma beleza tão harmoniosa que têm que ser preservada de maneira criteriosa.
A moradora Edite Nobre pede uma política pública de preservação coerente ao lembrar as Apacs (Área de Proteção de Ambiente Cultural).
– Para uma prefeitura que cria APACs em prédios inservíveis dos mesmos bairros, convenhamos que o intuito de preservar é o que menos importa. Ela preserva o que não é para preservar e destrói a história da cidade.
Com a palavra, a cidade!

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