POLÊMICA



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O pintor que carrega nas tintas em Ipanema

Globo


RIO - O céu é feito de pinceladas, em tons de azul. No banheiro, é noite; na cozinha, dia. As paredes estão cobertas de flores o ano inteiro. A geladeira, assim como o fogão, é colorida. Pela sala, há restos de poesia - pode-se dizer assim? - das últimas estripulias artísticas que deixariam um virginiano traumatizado pelo resto de sua existência astral: pincéis sujos, luvas usadas, latas de spray borradas de tinta e telas, muitas telas. Um fio de luz ilumina um tronco de árvore, com rostos entalhados, cujos olhos parecem ansiar por uma fuga pela janela. O ateliê do pintor Andrea Brandani, de 48 anos, em Ipanema tem a estética e a anarquia das ruas, relata Carla Rocha em reportagem publicada no GLOBO deste domingo.
O artista mora na Rua Vinícius de Moraes. Ele faz do bairro seu quintal, onde brinca de interferir na paisagem, esculpe árvores, grafita elefantes em fachadas de lojas e bancas de jornais, interage com porteiros e, às vezes, a contragosto, com a polícia. A arte de rua - ou street art - exige até um certo fôlego de atleta: no jiu-jítsu, Brandani é Shaolin. É comum ter que correr atrás das obras que, após terem sido forjadas durante meses na madeira gasta de árvores mortas, são arrancadas do chão por garis.
" O que não falta é espírito de porco e gente maluca por aí. Os troncos estão secos há mais de dez anos. Ninguém nunca olhou para eles. Mas é só virarem esculturas para um ignorante aparecer gritando que eu matei a árvore "
- O que não falta é espírito de porco e gente maluca por aí. Os troncos estão secos há mais de dez anos. Ninguém nunca olhou para eles. Mas é só virarem esculturas para um ignorante aparecer gritando que eu matei a árvore. É comum também o morador pedir para retirar o toco só para ganhar espaço de garagem - diz Brandani.
Mineiro, filho de um inspetor do Banco Central e sobrinho de um banqueiro, Brandani foi criado numa família de classe média que o estimulava a ser o que bem entendesse. E sempre esteve à vontade. Formado em educação física e direito - ainda defende uma causa ou outra para fechar as contas do mês -, ele fez aos 5 anos seu primeiro autorretrato. No final da adolescência na Zona Sul, casou-se com a atriz Nicole Puzzi, com quem tem uma filha de 27 anos. É tarólogo e quiromante. A miscelânea da vida imita a da arte.
- Se me acham louco? Mas que artista não foi? De Picasso a Modigliani, não escapa um. O Pollock (Jackson Pollock, ícone do expressionismo abstrato) não fez xixi na lareira da casa do Guggenheim? - costuma responder, perguntando. - Me acho muito normal. Só fui louco no sentido de nunca ter deixado o dinheiro pesar.

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