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Pesquisa mostra que menos de 8% dos assassinatos e de 3% dos roubos resultam em punição no estado23/10 às 21h40 Antônio Werneck


RIO - Dia 9 passado, calçadão da Praia do Leblon, próximo ao Hotel Marina. Dois menores passam correndo e roubam uma mochila, com documentos e outros objetos pessoais, que estava no cesto de uma bicicleta. A vítima é uma estudante de 24 anos, do curso de Ciências Sociais da PUC. Sem tempo para esboçar reação, resta a ela seguir para a 14 DP (Leblon), onde registra queixa. A universitária conta que, apenas em Ipanema e no Leblon, a região mais policiada da cidade, já sofreu três roubos semelhantes. Nenhum dos casos foi esclarecido pela polícia até agora.

"Vai ser difícil prenderem os ladrões. Foram assaltos muito rápidos, não vi o rosto dos bandidos e, na delegacia, fiquei em dúvida. Foi impossível apontar um suspeito" - contou a estudante, que não quis se identificar.

Vídeo: Pesquisa mostra dados da impunidade no Rio
A pequena eficiência da polícia e o grande número de registros de roubos e homicídios são fatores que podem explicar o grau de impunidade no Estado do Rio. Pelo menos é o que aponta uma pesquisa inédita dos sociólogos Ignácio Cano e Thais Lemos Duarte, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Depois de analisarem centenas de registros de ocorrência de roubos (mais de 900 mil) e homicídios (mais de 46 mil) feitos, entre 2000 e 2007, nas delegacias do estado, eles foram à Justiça buscar os resultados. E encontraram: menos de 8% dos homicídios (dolosos, quando há intenção de matar) e de 3% dos roubos resultaram em sanção penal para os autores.

"Em outras palavras, mais de 92% dos homicídios e mais de 97% dos roubos permaneceram impunes. Essas altas taxas de impunidade comprometem seriamente a capacidade do estado para identificar, processar e punir os criminosos e, como consequência, para fornecer segurança aos cidadãos" - afirma Ignácio Cano.

De quatro assaltos, vítima só registrou um
Durante a pesquisa, coordenada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes, com financiamento da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), os dois sociólogos identificaram fatores associados a uma maior ou menor probabilidade de esclarecimento dos crimes e de punição. Segundo Cano, de uma maneira geral, os dados descobertos pelo estudo parecem apontar para "o fato de que os crimes cometidos contra mulheres e os ocorridos na rua apresentam maiores chances de ficar impunes".

"Por sua vez, delitos com maior número de autores e de vítimas e aqueles cometidos com arma de fogo resultam numa maior probabilidade de condenação. Especificamente no caso dos roubos, a probabilidade de sanção aumenta nos crimes em que autor e vítima se conhecem e naqueles em que o valor dos bens roubados é alto" - diz.

O relato da farmacêutica Patrícia Silva Belo, de 30 anos, assaltada em Ipanema, parece confirmar os dados da pesquisa. Por volta das 21h do último dia 13, um bandido de cerca de 30 anos, vestindo bermuda estilo surfista, camiseta e chinelos, exigiu celular e dinheiro da vítima.

"Entrei em pânico: fiquei chorando muito, sem saber o que fazer, enquanto o bandido ordenava que eu fingisse ser sua namorada. Depois fugiu" - conta a farmacêutica.

O assalto em Ipanema foi o quarto sofrido por Patrícia. Em todos os outros casos, ela não procurou a polícia para registrar queixa.

"É difícil os policiais chegarem aos autores dos crimes. A gente fica com medo e acaba não procurando a delegacia" - diz Patrícia.

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