CARNAVAL 2011





Prefeitura exigirá em 2012 que blocos de rua sem tradição desfilem em outros bairros fora da Zona Sul

Luiz Ernesto Magalhães

RIO - A febre dos blocos que tomou conta das ruas do Rio de Janeiro neste carnaval termina hoje com 13 eventos, incluindo o desfile do Monobloco na Avenida Rio Branco, no Centro. Somente até sexta-feira o público desses blocos chegava a cerca de quatro milhões, sendo que, deste total, cerca de 1,5 milhão nos blocos que desfilaram pela Zona Sul . Mas o sucesso dos blocos é também motivo de preocupação. Em 2012 haverá mudanças na folia para evitar que a festa continue a crescer e o gigantismo comprometa a infraestrutura oferecida. Uma das principais medidas da prefeitura será limitar as autorizações e o número de desfiles por agremiação, justamente na Zona Sul. O objetivo é reduzir à metade — para 750 mil — o público em bairros como Leblon, Ipanema, Botafogo e Copacabana.

A decisão de cortar blocos na Zona Sul será formalizada amanhã pelo prefeito Eduardo Paes e o secretário municipal de Turismo, Antonio Pedro Figueira de Mello. Os dois farão um balanço final da festa.

Antonio Pedro adiantou, porém, que já ficou decidido que antiguidade é posto. Os blocos mais tradicionais que ajudaram a resgatar a tradição do carnaval de rua e colaboraram para torná-los um sucesso de público, tais como Banda de Ipanema, Simpatia É Quase Amor, Suvaco do Cristo e Imprensa que Eu Gamo, ficarão onde estão. Os roteiros e as datas em que esses blocos desfilam também serão respeitadas. Isso vai assegurar, por exemplo, que a Banda de Ipanema mantenha a tradução de sair três vezes na época de Momo.

Os blocos barrados na Zona Sul poderão indicar outros bairros para desfilar. Os pedidos começam a ser recebidos também amanhã pela Riotur, mas, no caso deles, não há garantias de que poderão sair mais de uma vez.

A prefeitura também não aceitará a inscrição de novos blocos em 2012. Este ano, foram dadas 424 autorizações, uma quantidade já considerada excessiva. A Zona Sul foi a região com mais blocos autorizados (153), seguida de Centro (74), Zona Norte (65), Grande Tijuca (49); Barra, Recreio e e Jacarepaguá (42); Zona Oeste (27); e Ilha (14).

— O carnaval de rua é, inegavelmente, um sucesso absoluto. Mas, no caso da Zona Sul, nós chegamos ao limite. Esperávamos 745 mil foliões e chegamos a um público de quase 1,6 milhão. Muitos blocos têm identificação com os bairros onde surgiram espontaneamente. Esses ficarão onde estão. Mas existem blocos cujo interesse é mais comercial ou são centrados em personagens que podem se apresentar em qualquer lugar — justificou o secretário de Turismo.


Antonio Pedro citou o Bloco da Preta como exemplo de agremiação que terá que buscar outro lugar para desfilar. Liderado pela cantora Preta Gil, o bloco levou 200 mil pessoas para a Praia de Ipanema no último domingo de fevereiro. O público estimado pela produção do evento e informado à prefeitura, porém, era de 30 mil.

Segundo o secretário, quando indicarem novas áreas para desfilar, os organizadores precisarão entender que o município não tem a intenção de criar novos corredores de desfiles na cidade. Não será autorizado, por exemplo, muitos eventos simultâneos no eixo da Avenida Rio Branco-Aterro do Flamengo (pistas da orla).

Para ajudar no planejamento, a prefeitura fez pesquisa por amostragem em vários blocos para identificar de que bairros vêm os foliões. Antonio Pedro acrescentou que a preocupação é melhorar a infraestrutura oferecida, incluindo banheiros químicos, operação de trânsito e segurança. O trabalho, explicou, fica muito mais difícil quando ocorrem diversos eventos simultâneos na mesma região. Na orla de Ipanema, por exemplo, o excesso de público levou parte dos foliões a invadir áreas destinadas à preservação da vegetação de restinga. Com a concentração de público, o resultado foram filas imensas nos sanitários públicos, apesar da quantidade recorde oferecida pelos patrocinadores: 13 mil.

— Os blocos do Rio fazem a maior festa popular de rua do mundo. E vamos ver se o Guinness pode registrar isso também no ano que vem. Afinal, eles já serão chamados para atestar que o Cordão da Bola Preta já é o maior bloco de carnaval do mundo (a marca atual é do Galo da Madrugada, de Recife) — disse o secretário de Turismo.

A presidente da Liga dos Blocos da Zona Sul e de Santa Teresa (Sebastiana), Rita Fernandes, aprova a restrição de blocos na região.

— A prefeitura tem mesmo que ordenar os blocos, mas sem engessar os que surgiram de forma espontânea. Muitos blocos que começaram a desfilar a partir de 2005 não têm vínculos com os bairros. Por que obrigatoriamente teriam que desfilar na orla do Leblon e Ipanema? — questiona.

Mas a presidente da Sebastiana observa que o município terá que ser cauteloso, levando em conta também os horários autorizados para os desfiles. Como comprovação de que isso não foi observado este ano, Rita cita a autorização para o novato Sargento Pimenta desfilar na segunda-feira de carnaval em Botafogo: o local e o horário escolhidos ficavam próximos à concentração do Bloco de Segunda, um dos mais tradicionais do bairro.

— Isso parou o trânsito em Botafogo e no Humaitá. A prioridade ao agendar deveria ser do Bloco de Segunda — avalia Rita.

Para Antonio Pedro, os organizadores deveriam se inspirar no exemplo do Monobloco. Criado em 2000 pelo grupo Pedro Luís e a Parede, o Monobloco desfilou inicialmente nas proximidades do Planetário da Gávea. Nos anos seguintes, à medida em que ganhava público, foi mudando de endereço na Zona Sul. A partir de 2007, os desfiles no domingo posterior ao carnaval passaram a ser na Avenida Rio Branco. Mesmo sendo o desfile matinal, atraiu 350 mil pessoas em 2010. Em quantidade de público, só perdeu para os dois milhões do Bola Preta.

— O Monobloco demonstrou que não é preciso estar na Zona Sul para fazer sucesso. Há várias formas de atrair esse público, seja pela imprensa, nos guias de blocos distribuídos pela prefeitura ou pelas redes sociais — disse o secretário.

Na reunião de amanhã, a prefeitura também apresentará outros dados sobre a festa do Rio. O número de turistas chegou a um milhão de visitantes, acima dos 750 mil esperados inicialmente. A estimativa é que eles gastaram R$ 740 milhões entre a sexta-feira e a terça-feira de carnaval. Dados da Associação Brasileira dos Agentes de Viagens (Abav) mostram também um crescimento de 15% no número de pacotes turísticos vendidos. Entre os turistas nacionais, houve um aumento maior na procura do Rio como destino entre paulistas e mineiros. Do exterior, vieram visitantes do Leste Europeu, Irã e Índia, que normalmente não escolhem a cidade para passar os dias de carnaval. A ocupação da rede hoteleira chegou a 95,36% dos leitos. Em todos os bairros, com exceção dos hotéis da Barra (85,25% este ano contra 89,09% no ano passado), a taxa de ocupação foi maior. No Centro, por exemplo, passou de 97% em 2010 para 100%. No Leme e em Copacabana atingiu 99%, contra 93% registrado em 2010. Já em Ipanema e no Leblon, a ocupação atingiu 93,5%, contra 92,8% de 2010.

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