CUIDADO !!! HOJE É SÁBADO !!!

Sábados, das 10h às 14h

Gangue do Rolex age em Ipanema e no Leblon com hora e dia marcados


Vera Araújovaraujo@oglobo.com.br



RIO - Sábado, chova ou faça sol, no Leblon ou em Ipanema, entre 10h e 14h, uma dupla de assaltantes sai de motocicleta à caça de suas vítimas com um único objetivo: roubar relógios de grife. O GLOBO teve acesso aos 76 registros de roubos de relógios feitos de 1 de abril ao dia 5 deste mês na 14ª DP (Leblon) e descobriu que, nesses cinco meses, foram levados pelos bandidos 18 da marca Rolex, três da Breitling, dois da Baume & Mercier e um da Bulgari. Dezessete desses ataques foram aos sábados entre 10h e 14h.

O fato de os assaltos acontecerem num mesmo dia e horário chama a atenção para o assassinato do arquiteto Rômulo Castro Tavares, de 33 anos . Ele foi morto no dia 3 deste mês, um sábado, às 10h45m, na porta de casa, na Rua Prudente de Morais, em Ipanema, ao ser abordado por dois homens de moto. Rômulo estava com um Rolex ao ser assassinado. Procurada semana passada pelo GLOBO, a Divisão de Homicídios (DH) informou não ter conhecimento da relação entre os roubos de relógios e a morte do arquiteto. Na sexta-feira, no entanto, a polícia revelou que a gangue do Rolex é a principal suspeita do crime.

Vítimas: ladrão usa mochila e pistola PT-380
Outros indícios apontam para os ladrões de Rolex. O homem que atirou no arquiteto usava uma mochila preta e o tiro foi disparado com uma pistola PT-380. Outras vítimas contaram que o ladrão que as atacou também usava uma mochila. Duas delas, que conhecem armas e foram ouvidas pelo GLOBO, informaram que o criminoso usava uma pistola PT-380.

INFOGRÁFICO: Os quarteirões do medo

Diretor de Comunicação do Comitê Organizador Local da Copa de 2014, Rodrigo Paiva foi um dos que não se esqueceram da arma usada pelo bandido, quando teve seu Rolex roubado, em 30 de julho, no Leblon:

- Eu tinha acabado de sair de um caixa eletrônico na Rua General Venâncio Flores. O bandido tirou a arma da mochila e encostou a pistola prateada na minha barriga. Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de ele ir direto no relógio. Ele queria o Rolex. Já fui assaltado seis vezes, mas, pela primeira vez, senti que o bandido não queria dinheiro.

Economista foi assaltado em praça de Ipanema

Assim como Rodrigo, mais seis vítimas ouvidas pelo GLOBO tiveram a mesma sensação: o objetivo do ladrão era levar o relógio.

- Quando soube da morte do arquiteto em Ipanema, logo me lembrei do meu caso - contou o economista Y. - Sei que fui escolhido nos dois minutos em que fiquei parado na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, decidindo com a minha mulher o que comprar na padaria. Foi ali que o bandido viu o meu relógio e me marcou. Ele desceu da moto com a mochila na frente. Pensei que quisesse alguma informação. Mas ele abriu a mochila, mostrou a pistola PT-380 e ordenou: "Me dá o relógio!".

Y. foi assaltado no dia 20 de agosto, às 12h50m. Ele descreve o bandido como um homem forte, acima do peso, com altura entre 1,65 e 1,70 metro. A descrição bate com as informações prestadas pelas demais vítimas.

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Esse assaltante é profissional. De longe, ele percebeu que o relógio era legítimo
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Motociclista, Y. aprova a Operação Barreira, desencadeada pela polícia para combater o uso de motos em assaltos:


.A hipótese de tentativa de assalto no caso do arquiteto é uma das principais linhas de investigação da DH. Em imagens captadas pelo circuito de câmeras de um prédio vizinho, vê-se que o assassino de Rômulo estava na garupa de uma moto e já seguia o carro da vítima. Uma testemunha contou que o bandido se posicionou na frente do arquiteto, abriu uma mochila preta e, em seguida, fez o disparo. Enquanto o arquiteto caía com um tiro na barriga, o assassino voltou para a moto e fugiu.

Uma outra vítima levantou a hipótese de os bandidos aguardarem o alvo na porta de casa. Nesse caso, a loja onde foi adquirido o relógio estaria sob suspeita, pois o comprador fornece o endereço.

- Eu havia comprado o relógio quatro dias antes de ser assaltado - comentou o empresário X. - O bandido me abordou quando eu parava o carro em frente ao portão da garagem. O ladrão bateu no pulso dele, sinalizando que queria o meu relógio. Fui assaltado no sábado, por volta das 14h, na mesma rua do arquiteto.

Criminosos atacaram também dentro de lojas
O engenheiro Z., já teve seis Rolex roubados e não acredita que os criminosos esperem as vítimas em casa.

- Da última (20 de agosto, no Leblon), o porteiro achou que o bandido já estava nos esperando. Mas acho que foi aleatório.

Os assaltos na região estão deixando moradores em estado de alerta. Entre os casos levantados pelo GLOBO, três chamam a atenção. Os assaltantes atacaram as vítimas dentro de lojas.

- O bandido entrou na loja sem se incomodar com as câmeras - contou um comerciante que viu dois clientes serem assaltados em sua loja.

Em relatórios de análise de roubos em geral praticados por bandidos em motocicletas, feitos pela 14ª DP (Leblon), constata-se que os assaltantes trocaram a quarta-feira pelo sábado. De maio a julho deste ano, a maior parte (24%) dos casos em que bandidos usaram motos ocorreu nas quartas-feiras. No mês passado, a maior parte (22%) aconteceu nos sábados.

- Já estamos investigando de forma cuidadosa os roubos em que são utilizadas motocicletas - disse o delegado titular da 14ª DP, Gilberto Ribeiro.

A partir da descoberta do GLOBO sobre a gangue do Rolex, que age com dia e hora marcados, a polícia vai investigar o caso, a fim de chegar também ao receptador. O delegado pede a quem tiver qualquer informação que telefone para o Disque-Denúncia (2253-1177).

Após a morte do arquiteto, o comandante do 23º BPM (Leblon), tenente-coronel Frederico Caldas, informou que, no mês passado, houve 120 roubos a transeuntes na área do batalhão, enquanto no mesmo mês de 2010 foram 97 (um aumento de 23,7%). Perguntado se havia recebido a informação de que o sábado era o dia preferido dos criminosos, Caldas disse que não:

- Nunca soube de quadrilha específica de roubo de relógios.

Os relógios Rolex custam de R$ 11 mil a R$ 100 mil.

Em São Paulo, plano contra quadrilhas
A polícia de São Paulo criou um plano de inteligência para desbaratar grupos especializados no roubo de relógios Rolex. A Secretaria de Segurança Pública verificou que pelo menos cem adolescentes eram usados pelas quadrilhas, que chegavam a pagar R$ 20 por relógio roubado. No mercado oficial, um Rolex pode custar até R$ 100 mil. Ainda segundo a secretaria, não há informação de que bandidos de São Paulo estariam atuando em parceria com assaltantes no Rio.

Em junho, a polícia desmantelou uma quadrilha que aliciou, nos últimos três anos, adolescentes na Grande São Paulo para roubar não só os relógios importados, mas aparelhos de celulares, principalmente nas regiões de Itaim Bibi e dos Jardins. Foram presos cinco suspeitos de participar do esquema, que fornecia armas de brinquedo para que os adolescentes praticassem os delitos. Além dos assaltos nas ruas, as quadrilhas especializadas em Rolex passaram a invadir lojas da rede em shoppings da capital paulista.


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