MORADORES DE RUA














Mendigos tipo exportação
Levantamento mostra que quase metade da população de rua vem de fora, até de outros países

Athos Moura (athos.moura@oglobo.com.br) e

Ediane Merola (ediane@oglobo.com.br)



RIO - Leblon e Ipanema estão repletos de moradores que não pagam o alto IPTU desses bairros. São mendigos que fazem da praia e das calçadas suas moradias. E muitos deles sequer são daqui. Durante a madrugada de quarta-feira, uma equipe do GLOBO percorreu ruas dos dois bairros e contou mais de 15 mendigos. Há menos de uma semana, equipes da Secretaria municipal de Assistência Social fizeram uma operação de recolhimento de população de rua na região. De acordo com o órgão, no mês passado, os educadores sociais realizaram 210 abordagens na Zona Sul. Desse total, 47% eram de outros estados, municípios da Região Metropolitana e até de outros países. Os motivos mais usados para justificar a vida ao relento foram consumo de drogas (39%) e conflito familiar (29%).

DESAFIOS: Prefeitura tenta tornar abrigos para mendigos mais atraentes e enche viadutos de pedras

Na madrugada de quarta-feira, repórteres do jornal flagraram, durante uma ronda, grande concentração de pessoas passando a noite sob marquises de lojas na Avenida Ataulfo de Paiva, a principal do Leblon. Segundo seguranças do local, as lojas são escolhidas porque porteiros são orientados a expulsar os mendigos da frente de prédios residenciais.

Na Rua Barão da Torre, em frente à Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, um homem dormia dentro de um saco de lixo, na porta de uma casa de festa. Em um outro ponto, um adolescente usava pedaços de papelão para se proteger do frio.

Até detetive investigou mendigos


A Praça Nossa Senhora da Paz, segundo o presidente da Associação de Moradores e Amigos de Ipanema (Amai), Carlos Monjardim, está entre os pontos com mais moradores de rua. Há dois anos, ele contratou um detetive que se disfarçou de mendigo para investigar a origem dessa população. Monjardim ficou surpreso ao descobrir que uma mulher, dona de imóvel na Zona Sul, esmolava em frente à Igreja Nossa Senhora da Paz e chegava a arrecadar R$ 2 mil por mês.

- Esse é um problema constante no bairro por ser uma região de classe média alta, com grande circulação de turistas. Atrai tanto uma população de rua realmente necessitada como também profissionais. As portas das agências bancárias também são disputadas - diz Monjardim, acrescentando que contratou o detetive após ter sido criticado ao lançar uma campanha contra a doação de esmolas.

Monjardim conta que o problema é um dos mais discutidos nas reuniões do Conselho Comunitário de Segurança, realizadas no 23º BPM (Leblon). Para ele, a frequente troca de comando no batalhão do bairro contribui para agravar a situação:

- Morador de rua não é só uma questão social. Flanelinhas e pivetes acabam se infiltrando para roubar as pessoas.

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Esse é um problema constante no bairro por ser uma região de classe média alta, com grande circulação de turistas. Atrai tanto uma população de rua realmente necessitada como também profissionais
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.Na orla de Ipanema, entre os postos 8 e 9, o quadro encontrado era igualmente desolador: um homem dormia na areia e outro encolhido embaixo do fraldário do Baixo Bebê.

Na Rua Aristides Espínola, no Leblon - onde mora o governador Sérgio Cabral -, uma moradora de rua remexia em lixeiras, deixando a sujeira espalhada pelo chão. A cena não é incomum. Todo início de madrugada, funcionários de restaurantes e moradores dos prédios costumam deixar lixo na calçada para a coleta da Comlurb. Mas, antes disso, mendigos vasculham os sacos à procura de restos de comida e de objetos jogados fora.


Presidente da Associação de Moradores do Leblon, Evelyn Rosenzweig diz ter recebido várias queixas de moradores sobre o aumento da população de rua no bairro, sobretudo nos fins de semana.

- Durante a noite, a população adulta é grande. É possível perceber que as pessoas trabalham por aqui, normalmente como flanelinhas, e depois dormem na rua, com papelões, trouxas de roupa. Há verdadeiros acampamentos em plena Ataulfo de Paiva - observa Evelyn, que relata ter feito várias reclamações à prefeitura.

Para o turista americano Chris Smith, de 30 anos, a presença de mendigos dormindo pelas ruas causa desconforto. Na Rua Farme de Amoedo, ele viu um homem coberto por um lençol, dormindo numa cadeira.


.- É triste ver pessoas dormindo nas ruas. Visualmente é feio. Mas, em geral, não causa medo. Mas fiquei apreensivo com o homem debaixo do lençol. Não sabia se ele estava dormindo de verdade ou com alguma faca ou arma - contou Chris.

Segundo a Secretaria de Assistência Social, informações sobre moradores de rua podem ser repassadas pelo telefone 3973-3800, de segunda a sexta-feira, das 9h30m às 17h.

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